sábado, 20 de dezembro de 2014

Chove. É dia de Natal



Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.


(Fernando Pessoa)



domingo, 14 de dezembro de 2014

Treinamento autógeno




Já por diversas vezes, no decorrer da vida, me deparei com alguns sintomas que os médicos tentaram diagnosticar como sendo  de depressão! Sempre duvidei muito que tivesse sido depressão, na medida em que, o que tenho lido acerca desta doença, e não tem sido pouco, não se assemelha, nem pouco mais ou menos, às queixas que eu apresentava.
Estou a falar nisto agora, porque me lembrei dum episódio, vivido pós 25 de Abril, numa altura em que os conflitos laborais eram mais que muitos!
Mas isso são “contas de outro rosário”. Apenas, e para levantar uma pequena “ponta do véu” daquilo que passei,  vou confessar aqui, que entre outros “carinhos” que agora não recordo, cheguei a ser apelidada de “lacaia do patronato”.
Enfim, coisas que já lá vão, mas que, na altura,e porque eram totalmente injustas, mexeram comigo e me obrigaram a consultar um psiquiatra.
Conversa vai, conversa vem, o médico resolveu enveredar por um método de tratamento que me era totalmente desconhecido, e que agora, com a facilidade que a internet nos dá de tudo saber, tudo conhecer, descobri que se chama (treinamento autógeno).
Fui, então, "convidada" a deitar-me na marquesa e a relaxar, o ambiente ficou à média luz, e deveria concentrar-me numa parte do meu corpo, que no caso foi o braço direito. Então começou, em tom monocórdico: Braço direito quente e pesado, braço direito quente e pesado e por aí fora durante um bom pedaço de tempo que agora não me recordo. E não é que, quando acaba a sessão e acende as luzes, eu quase não podia com o braço , de tão quente e pesado que estava?!!!
Só que, para que este tratamento resultasse, teria de fazer várias sessões, quer a sós, quer no consultório!
Quando chego ao emprego e conto aos colegas esta experiência, foi cá uma “risota” tamanha, tantas as brincadeiras à volta duma “coisa” que se calhar até era séria, que nunca, nunca mais, consegui repetir a experiência. O médico bem que tentava, mas a vontade de rir era tanta que superava todos os meus esforços! Estou em crer que a minha atitude deve ter levado o médico a pensar que eu não regulava lá mesmo muito bem da cabeça e que o caso talvez fosse mais grave...  vai daí avançou para os anti-depressivos.

Concluindo: Comigo não resultou, mas se por acaso, alguém precisar e quiser experimentar,  pode consultar o treinamento autógeno, aqui na wikipédia.

Com esta recordação do passado vos desejo uma boa semana, sem depressões e ataques de pânico (que me parece ser o que eu tinha). Sim, porque "de médico e louco, todos temos um pouco".


JU

sábado, 6 de dezembro de 2014

Nevoeiro



Neste poema, Fernando Pessoa transmite uma imagem desencantada da realidade do Portugal dos seus dias... quiçá dos nossos!




Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem, 
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


É a Hora!


(Fernando Pessoa)
(mensagem)

domingo, 30 de novembro de 2014

Leituras, Música, Cultura em Geral e... Tempo Perdido!!!




Quando reflicto sobre o que foi a minha vida profissional, agora, tudo visto a uma certa distância, não posso deixar de me recriminar sobre o meu apego doentio ao trabalho!


Ainda se o fizesse por conta própria, ter-se-ia admitido que o meu empenhamento fosse o máximo! Agora, assim, para aquele "Grupo Financeiro", cujo “maioral” está, vai não vai, para   ver o “sol aos quadradinhos”, é caso para dizer: Ju: Foste muito burra!!!


Não que não me sinta satisfeita com o sentimento de “dever cumprido”. Foi compensador, ao fim de algum tempo ver o meu trabalho reconhecido. Ter alcançado um “patamar” que, na altura, poucas mulheres conseguiam. Mas daí a deixar que tudo o resto me passasse ao lado (leitura, música, cinema ) já é demais!!!


Mas, como o passado é passado, agora tenho nos livros uma companhia a que já me tinha desabituado , leio-os comprados, emprestados, trocados, os que estavam por aí a “enfeitar” estantes, etc. A música, essa sempre  a adorei: Sonho acordada, ao ouvi-la!...  E não é que agora, ao ouvir certos intérpretes, dou comigo a pensar: Onde estavas tu?


Uma coisa é certa: Nada pior para os meus ouvidos, seja sobre que tema for, ouvir dizer: Não, agora já é tarde!... Não, nunca é tarde para nada! “Viver até à morte é viver”!


Agora, que já falei demais, deixo-vos com o meu optimismo e desejo-vos um bom resto de domingo e uma excelente semana.


E, como dizia SOLNADO: “Façam o favor de ser felizes”.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

AMO-TE, VIDA!





 «Se depois de eu morrer quiserem escrever a minha
 biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas - a
 da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.»


(Fernando Pessoa)

Ju

domingo, 23 de novembro de 2014

A saga das medidas






Isto que vos vou contar não se passou comigo, mas sim com uma senhora que teima em andar sempre aqui, colada a mim.

Com o passar dos anos, e como não podia deixar de ser, essa “minha sombra” fosse pela idade, pelo desleixo, porque tinha coisas muito mais importantes com que se preocupar, pouco ou nada ligava à roupa que se ia acumulando no seu armário. Quando “caiu” em si e deu por lá uma espreitadela reparou que alguém, sorrateiramente, deve ter-se lá metido, levou para algum “corta e cose” e, maldosamente, diminuiu-lhe ao tamanho, tornando a colocá-la lá! Direitinha! Nos mesmos sítios, nos mesmos cabides, para que a dona não se apercebesse! E não é que aquela saia, aquelas calças, que tão bem lhe assentavam, quase não lhe cabiam numa coxa!!!


Desesperada, veio desabafar comigo! Que lhe havia eu de dizer? Disse-lhe aquilo que fui observando ao longo dos últimos tempos, enquanto andava aqui a "tropeçar" em mim: Não fazes exercício, comes chocolatinho à noite! Em vez de fazeres marmelada e docinho de marmelo só para os outros, não resistes e és a melhor “herdeira”, etc. etc. etc.

Como não podia andar nua na rua (ia presa) lá se dirigiu para uma casa de tamanhos grandes. A nossa amizade era tão grande que resolvi acompanhá-la! As funcionárias, atenciosas e solícitas (até porque o preço das peças nessas casas é pela “hora da morte”) lá foram indicando esta e mais aquela peças, ao mesmo tempo que se saíram com esta: A senhora tem que vir cedo, o seu tamanho é o MAIS PEQUENO da loja e essas medidas são as primeiras a esgotar, bla, bla, bla. Vês? Disse-lhe! Afinal ainda não é um drama. Vestes o tamanho mais pequeno da loja dos grandes!!!

Passaram-se uns tempitos, ela lá ganhou algum juízo, deixou o chocolate, diminuiu à ração e aos docitos, e o tempo passou !

Os "trapitos" começaram a ficar velhos! Era urgente uma remodelação, e lá voltei a acompanhá-la à mesma casa onde tinha sido tão bem atendida. A funcionária não a conheceu! Já devia ser outra! Olhou, mirou-a de alto a baixo e disse: Desculpe, minha senhora, mas não temos nada que lhe possa assentar bem. A senhora AINDA não gasta nesta casa. Talvez daqui por uns anos, sabe-se lá, se a senhora engordar…

Vês? Boas palavras! Disse para a minha amiga! Saímos de lá, estava hilariante (a minha sombra)!!!
Puxou-me por um braço, e lá tive que a acompanhar para casas de roupa para “gente normal”...


Ju


sábado, 15 de novembro de 2014

(S. MARTINHO) UMA RUA DO PORTO


Mais um Outono que chega vestindo cor de ansiedade 
E cada rua é diferente
Cada rua é um quadro novo que veste o corpo do povo
Com cores da cor da saudade
O frio toca as janelas o vento sopra ligeiro
E entre formas singelas
Pelo dorso das janelas corre lento o nevoeiro
Nevoeiro? Ou será fumo?
Daquele fumo cinzento gostoso calmo diferente
Que dá vida ao pensamento e põe a alma mais quente!
Sereno vivo interessado pelo odor que me anima
Caminho atrás desse cheiro
E no dobrar de uma esquina
Vejo todo enfarruscado o homem do fogareiro
Pesam-lhe os anos no rosto
Mas a luta que travou no seu duro mourejar
Foi mar que há muito amansou
A raiva que não roubou o brilho do seu olhar
Da boca saltam pregões mais quentes que as quentes brasas
E os olhos são dois tições em forma de corações
Que se enfeitaram com asas
E vejo nas suas mãos certas carícias estranhas
Sempre que passa os seus dedos pela pele das castanhas
É fumo é luz é loucura que inunda o ar que me cobre
É a paz num fogareiro
Com castanhas de quentura no frio de quem é pobre
E então ali nessa rua de esquinas incendiadas
De carinho e de calor
Compro castanhas assadas
E festejo o S. Martinho em casa com meu amor

Fernando Campos de Castro
(in Violação da Noite)



(Publicada com uns dias de atraso)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Avó babada





Então não é que o "pirralhito" já arrecadou uma medalha de "ouro" ! Toca a trabalhar para que outras se sigam!


Parabéns Bárbara.


domingo, 9 de novembro de 2014

O amor não tem nada a ver com a idade



"Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor. 

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério."

(José Saramago)
16/11/1922 - 18/06/2010