domingo, 23 de Novembro de 2014

A saga das medidas






Isto que vos vou contar não se passou comigo, mas sim com uma senhora que teima em andar sempre aqui, colada a mim.

Com o passar dos anos, e como não podia deixar de ser, essa “minha sombra” fosse pela idade, pelo desleixo, porque tinha coisas muito mais importantes com que se preocupar, pouco ou nada ligava à roupa que se ia acumulando no seu armário. Quando “caiu” em si e deu por lá uma espreitadela reparou que alguém, sorrateiramente, deve ter-se lá metido, levou para algum “corta e cose” e, maldosamente, diminuiu-lhe ao tamanho, tornando a colocá-la lá! Direitinha! Nos mesmos sítios, nos mesmos cabides, para que a dona não se apercebesse! E não é que aquela saia, aquelas calças, que tão bem lhe assentavam, quase não lhe cabiam numa coxa!!!


Desesperada, veio desabafar comigo! Que lhe havia eu de dizer? Disse-lhe aquilo que fui observando ao longo dos últimos tempos, enquanto andava aqui a "tropeçar" em mim: Não fazes exercício, comes chocolatinho à noite! Em vez de fazeres marmelada e docinho de marmelo só para os outros, não resistes e és a melhor “herdeira”, etc. etc. etc.

Como não podia andar nua na rua (ia presa) lá se dirigiu para uma casa de tamanhos grandes. A nossa amizade era tão grande que resolvi acompanhá-la! As funcionárias, atenciosas e solícitas (até porque o preço das peças nessas casas é pela “hora da morte”) lá foram indicando esta e mais aquela peças, ao mesmo tempo que se saíram com esta: A senhora tem que vir cedo, o seu tamanho é o MAIS PEQUENO da loja e essas medidas são as primeiras a esgotar, bla, bla, bla. Vês? Disse-lhe! Afinal ainda não é um drama. Vestes o tamanho mais pequeno da loja dos grandes!!!

Passaram-se uns tempitos, ela lá ganhou algum juízo, deixou o chocolate, diminuiu à ração e aos docitos, e o tempo passou !

Os "trapitos" começaram a ficar velhos! Era urgente uma remodelação, e lá voltei a acompanhá-la à mesma casa onde tinha sido tão bem atendida. A funcionária não a conheceu! Já devia ser outra! Olhou, mirou-a de alto a baixo e disse: Desculpe, minha senhora, mas não temos nada que lhe possa assentar bem. A senhora AINDA não gasta nesta casa. Talvez daqui por uns anos, sabe-se lá, se a senhora engordar…

Vês? Boas palavras! Disse para a minha amiga! Saímos de lá, estava hilariante, (a minha sombra)!
Puxou-me por um braço, e lá tive que a acompanhar para casas de roupa para “gente normal”...


Ju


sábado, 15 de Novembro de 2014

(S. MARTINHO) UMA RUA DO PORTO


Mais um Outono que chega vestindo cor de ansiedade 
E cada rua é diferente
Cada rua é um quadro novo que veste o corpo do povo
Com cores da cor da saudade
O frio toca as janelas o vento sopra ligeiro
E entre formas singelas
Pelo dorso das janelas corre lento o nevoeiro
Nevoeiro? Ou será fumo?
Daquele fumo cinzento gostoso calmo diferente
Que dá vida ao pensamento e põe a alma mais quente!
Sereno vivo interessado pelo odor que me anima
Caminho atrás desse cheiro
E no dobrar de uma esquina
Vejo todo enfarruscado o homem do fogareiro
Pesam-lhe os anos no rosto
Mas a luta que travou no seu duro mourejar
Foi mar que há muito amansou
A raiva que não roubou o brilho do seu olhar
Da boca saltam pregões mais quentes que as quentes brasas
E os olhos são dois tições em forma de corações
Que se enfeitaram com asas
E vejo nas suas mãos certas carícias estranhas
Sempre que passa os seus dedos pela pele das castanhas
É fumo é luz é loucura que inunda o ar que me cobre
É a paz num fogareiro
Com castanhas de quentura no frio de quem é pobre
E então ali nessa rua de esquinas incendiadas
De carinho e de calor
Compro castanhas assadas
E festejo o S. Martinho em casa com meu amor

Fernando Campos de Castro
(in Violação da Noite)



(Publicada com uns dias de atraso)

terça-feira, 11 de Novembro de 2014

Avó babada





Então não é que o "pirralhito" já arrecadou uma medalha de "ouro" ! Toca a trabalhar para que outras se sigam!


Parabéns Bárbara.


domingo, 9 de Novembro de 2014

O amor não tem nada a ver com a idade



"Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor. 

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério."

(José Saramago)
16/11/1922 - 18/06/2010

domingo, 2 de Novembro de 2014

Porquê tanto sucesso?



Como não aprecio, pergunto: Será que o defeito é meu?

O desmesurado êxito de Tony Carreira, que continua a  arrastar multidões e a vender como ninguém, é, para mim, fenómeno inexplicável, uma vez que não o acho, nem grande intérprete, nem grande compositor.

As músicas, as letras  e o seu estilo de cantar, não fazem, nem de perto nem de longe, parte do meu ideal musical.

Não quero com isto dizer que não aprecie o seu esforço, a personagem de homem humilde e trabalhador que ele próprio criou, e até,  a simplicidade e comportamento por que se tem pautado a sua vida, ao contrário do que estamos habituados a ver com muitos outros "famosos"


Espero que os comentários, se os houver, não sejam demasiado hostis!...


Uma boa semana para todos!


domingo, 26 de Outubro de 2014

E assim vai o país!


(excerto de discurso parlamentar)

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver
prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto."

Rui Barbosa 

in Obras Completas

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Epitáfio ecológico



E de repente, não mais que de repente, como um enfarte na hora da sobremesa, surge a tal da ecologia a instalar-se no calendário da nossa existência. E tome verde, que te quero verde. Clorofila. Densas matas. Fontes murmurantes. Cascatas tonitruantes. Arvores plantadas por sujeitinhos de fato e gravata mais ou menos puídos (ou poluídos). E chega de poluição, pelo menos neste parágrafo.

Eis a ecologia, segundo a definição: "Estudo dos seres vivos em função do meio natural em que vivem, solo, clima, topografia". O termo foi introduzido por Haeckel para designar a adaptação dos organismos ao ambiente e é hoje usado por geógrafos e sociólogos.

Só que a ecologia já entrou em campo a perder por cinco a zero. Querem exemplos? Para cada árvore plantada, o extermínio de uma floresta. Para um rio mais ou menos recuperado, quatro ou cinco definitivamente secos. Para cada novo capítulo aprovado na nova lei do silêncio, uma nova subida nos decibeis da poluição sonora. E em cinco massacrantes mensagens publicitárias, sobrevive apenas um apostólico "é proibido colar cartazes". Onde, rapazes?

Mais há mais, muito mais. A memória do cogumelo de Hiroshima ainda é maior do que qualquer guarda-chuva anti-atómico. Para qualquer acordo de paz assinado, corresponde uma dúzia de actos terroristas. E, claro está, perante um novo campo arado e fértil, regista-­se a morte de um milhar de pessoas. De fome, claro está.

Daí que quando Haeckel descobriu a ecologia pensou ter chegado a Porto Seguro, quando simplesmente estava a descobrir o caminho da volta sem a ida. Hoje é isso que se vê, ecologia ab hoc et ab hac, ou a torto e a direito, na devida tradução.

O grande tema ainda é a poluição, o resto é conversa de pintainhos. O grito do vizinho do 5° esquerdo, a telenovela das nove no eco de todo o prédio, o engarrafamento de um sem fim de viaturas, o sino electrónico da igreja, o tubo de escape do carro do Joãozinho, a explosão demográfica e sei lá o que mais, que o meu saco também já está poluído.

Que me perdoem os ecologistas, mas não há dúvida de que a poluição é nossa, veio para ficar e vai crescer mais e mais, de pai para filho. E todos, sem excepção, vão entrar pelo tubo de escape do carro do Joãozinho. Quem viver, com mais tosse ou menos tosse, verá ou sentirá nos seus pulmões.

Enfim, para não dizerem que fiquei na periferia do assunto ou na órbita dos acontecimentos, aqui fica a definição última do tema, que inclusivamente poderá ser colocada na minha, espero que longínqua, lápide.

— Pense ilustre passageiro, no belo tipo "porreiro" que jaz neste cemitério. E no entanto, acredite, quase morreu de ecologia, foi salvo por uma pneumonia.

E mais abaixo:

— Não peço orações, bastam três pragas ecológicas.


(José Alberto Braga)


Não é bem assim, penso eu! Mesmo com todas as contradições inerentes à luta que trava, mesmo com a força do poder económico que se lhe opõe, o ideal de desenvolvimento ecológico tem vindo a ganhar espaço e a ser posto em prática. De forma insuficiente? Sem dúvida. Mas bem mais do que o autor deste texto parece aqui temer.

Júlia



segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Violência Doméstica


As estatísticas não podiam ser mais negras. Segundo os dados avançados pelo Diário de Notícias, em 2014, já morreram 24 mulheres vítimas de violência doméstica.

Mais urgente que a dívida, o défice, ou qualquer orçamento, é urgente que o poder político olhe para esta tragédia e tome medidas para acabar com este carnificina.

De notar que os dados que nos chegam são, apenas e só, uma gota no oceano. Milhares de vítimas, escondidas, são diariamente humilhadas, espezinhadas, sem que estes casos cheguem, sequer, às polícias.

Será que quem manda não percebe, ou não tem coragem para perceber, que o estado em que o país se encontra, de profunda miséria, contribui para esta tragédia?

Claro que os nossos políticos, infelizmente, não percebem.

Júlia


sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Tatuagem




Descobri em mim há pouco tempo uma capacidade: eu estou apto para todos os encontros. Se, como disse o Vinícius, a vida é a arte do encontro, então eu sou um artista. Mas eu contrariaria o grande poetinha, afirmando que a vida consiste também na arte da despedida. Porque muitas vezes um novo encontro depende vitalmente de uma anterior despedida. E eu não tenho nenhuma aptidão para as despedidas, daí porque sinto-me incapacitado para a vida.

Ninguém que não conseguiu despedir-se é capaz de encontrar-se novamente. Todo encontro é sempre informal, não o presidem quaisquer compromissos, nem o sucesso dele próprio. Já as despedidas, estas são solenes e formais, pesadas, derrubadoras, repletas e gritantes, de fracasso, até mesmo as despedidas agradáveis, imaginem as indesejáveis. Livrem-me de todos os adeuses, até mesmo porque todos são hipócritas, ninguém pode separar-se daquilo ou de quem já amou, mesmo que não ame mais. Mais atroz que uma chacina será então um adeus ao que ainda se ama. Eu expliquei isso uma vez aqui, quando afirmei que as pessoas que largam o cigarro o fazem por não terem amado o cigarro. Como vou deixar um vício que amo e me consome? Todos os amores são vícios que consomem.

Ainda tentando desmentir o grande poeta: o amor e a afeição não são infinitos enquanto durem, são eternos mesmo depois que acabam.

Quando me entrego a alguém ou algo nunca mais disso me libertarei. Em pouco tempo verei que aquilo que eram laços, embora desatados, permanecendo como grilhões. Só para dar um exemplo, é apenas um exemplo, nada tem com o concreto que faz desabafar assim: venho encontrando mais de uma vintena de amigos que se tornaram ex-fumantes, a quem interrogo sobre sua experiência. Quase todos eles me dizem que às vezes sonham com o cigarro, têm pesadelos desejantes de cigarro, vacilam dramaticamente em voltar ao cigarro, a maioria não volta de vergonha, medo da vaia íntima ou exterior, ou porque seria um retrocesso desperdiçante do enorme sacrifício imposto pela renúncia.

É isto. Tudo que nosso coração conquista ou o que por ele é conquistado, disso ele se torna para sempre prisioneiro. Não há jamais como fugir-se daquilo ou de quem se amou, mesmo que agora se o odeie. E é mortal que a gente se afaste de quem ou de que se ama. Tolice o que se ouve: só um outro amor pode substituir um grande amor. Nada há que cure o que se cravou uma vez no coração, mesmo que já se tenha desencravado.

No coração plasmam-se impressões digitais indestrutíveis, são definitivamente dele, ele nunca conseguirá abdicar delas podem até despegar-se dele suas substâncias, mas lá continuará o desenho de suas linhas, como uma tatuagem inapagável.


Esqueça de esquecer o que um dia incendiou o seu coração. São labaredas eternas. O sopro de um vento ou de um tufão podem amainá-las, mas logo em seguida elas voltam a crepitar. Nós somos vassalos do que bem queremos e escravos eternos de nossos ex-amores. Ninguém servirá dedicadamente a um novo amor, desde que já tenha assim se entregue o outro. O que passou não passou. A não ser que não tenha se passado.



(Francisco Paulo Sant'Ana)



sábado, 11 de Outubro de 2014

Frases


Barragem de Caniçada vista da Pousada de São Bento


Admiro a terra, quero-a, sempre gostei dela. Sempre me senti feliz por estar vivo: apesar da guerra, das más notícias, não sou capaz de matar em mim a simples alegria de viver.


(Julien Green)

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

O MESMO JARDIM




O jardim é o mesmo
Nós é que mudamos muito
Com estas mãos repletas de Outonos
e caídas folhas
em direcção aos frios do Inverno

Atravessamos a lembrança toda
e pouco mais nos resta
do que este adormecermos juntos
cansados, mas felizes
Até que o jardim se deite connosco
e adormeça

(Fernando Campos de Castro)

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

RELIGIÃO EM NOME DE DEUS?



Nenhum deus
Por mais insignificante ou poderoso que seja
Justifica a violência.
Para isso bastam-nos os homens
E desgraçadamente
Muitos dos homens que seguem esses deuses…

FCC

sexta-feira, 21 de Março de 2014

ÁRVORE



Sou o útero da água e a alma do fogo
O berço que acolhe e te protege a infância
A cama onde dormes e fazes amor
E o verde que encurta uma longa distância

Eu sou o regaço da sombra que anseias
O ar que respiras e a chuva que vês
A brisa nos olhos quando te passeias
E sou o papel do livro que lês

Eu sou a madeira que te enche a casa
A haste onde as aves suspendem os ninhos
E a grata frescura quando o sol abrasa
O pó dos caminhos

Eu sou o pulmão do corpo do mundo
O jardim d’esperança que enfeita a cidade
E em mim é que dormes o sono profundo
Quando outros te levam para a eternidade

Árvore apenas em ti me entrelaço
De ti dependente como tu de mim
Unidos os dois num último abraço
À espera do fim

Sou árvore apenas
E por mais pequenina e simples que seja
Num mundo que anda de mim esquecida
Eu sou o alento que a terra deseja
Eu sou o princípio e o fim da vida


(Fernando Campos de Castro)

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Bem-me-quer…





“A vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala,
vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias,
ter parado no bem-me-quer …”

(José Saramago)

segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

FOZ DO MEU AMOR



À beira mar, assim de proa erguida
Branca gaivota de luz, tu és farol
És a traineira que parte rumo à vida
Ó minha Foz de luz, de sal e sol
Nas tuas ruas corre a maresia
E as tuas casas são como um altar
Onde se ouve à noite a sinfonia
Que o Douro toca quando beija o mar

À beira mar, assim tu és vitral
De céu azul e algas e de bruma
És velha Foz a minha catedral
Entre castelos de ondas e d’espuma
Tu és ainda a tela por pintar
Onde se espelha o céu e a distância
Aquele verso ainda por rimar
A mãe do mar e mãe da minha infância

Ó minha terra feita de ternura
De barcos, redes, mar aberto em flor
Ó Foz do Douro, minha Foz futura
Razão de ser deste meu amor

domingo, 26 de Janeiro de 2014

Se eu gosto de poesia?


Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente,
bichos, plantas, lugares, chocolate,
vinho, papos amenos, amizade, amor.
Acho que a poesia está contida nisso tudo.



domingo, 5 de Janeiro de 2014

Eusébio, o imortal


Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

"Quando um homem quiser"


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
...És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


(José Carlos Ary dos Santos)

domingo, 20 de Outubro de 2013

Mia Couto


O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda
Basta o tempo.


Bom domingo e boa semana

quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

LÁGRIMAS DE MISÉRIA


DIA MUNDIAL DA ERRADICAÇÃO DA POBREZA

Com as mãos a tremer, na solidão desta minha triste vida, grito num tom silencioso, tão forte que os meus pés parecem pisar um gelo glaciar. Hoje, disse-me um senhor que aqui passou, é o dia internacional de Irradicação da Pobreza. Ele foi embora e as lágrimas cairam-me, pois apesar de jamais me ter queixado nesta minha miserável vida, tenho consciência da pobreza em que sobrevivo, ou melhor, da insignificância do ar que respiro. Sinto que meto nojo a esta sociedade de engravatados, que, certamente, meto nojo àqueles senhores que falam lá naquelas bancadas que nos governam, meto nojo aos comentadores das televisões, meto nojo até à mãe da solidariedade. Sinto-me um nojo humano, neste país miserável que despreza quem trabalhou desde que nasceu, quem nunca reclamou, quem sempre labutou em prol deste país que um dia prometeu um futuro melhor. Nojo, é o que sinto por estas lágrimas que me molham o rosto, pois este meu corpo, que tanto foi escravizado, merecia bem mais do que morrer neste estado. Nojo, de mim, de ti, de nós.

(Aldeias de Portugal)
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