Era um dia como tantos outros, na
cidade do Porto. Ainda “enfiada” no vale de lençóis, eis que, como
habitualmente, sou despertada pelo som da rádio, sintonizado no "rádio
clube português". Aquele rádio que teimava, dia após dia, em não me deixar fazer
mais uma “sorninha”!... Nada a fazer! Não era
domingo, nem feriado, não havia desculpa para não ir trabalhar!...
Mais uma espreguiçadela e eis que, já com os
sentidos mais apurados, constato que, contra o costume, não havia notícias,
apenas a transmissão de marchas militares. Aqui há coisa, digo para o meu
companheiro. De certeza, replica aquele, isto não é normal, aqui há m...! Espreito
pela janela, mas o vai-vem dos transeuntes não indiciava nada de anormal. (Vivia, na altura, para quem
conhece a cidade, na R. de Cedofeita). Volto novamente a atenção para a rádio.
Algumas estações estavam simplesmente silenciadas.
Eis que, depois de alguma excitação, o telefone
toca. Era a entidade empregadora, já um pouco mais informada: - Nem pensar em ir
trabalhar, não é seguro, há uma revolução, os tanques estão na rua… blá, blá,
blá…
Após o primeiro impacto por tão insólita
notícia, segue-se o bulício próprio de uma situação tão inesperada… Ignorando o
apelo para me conservar em casa, como aconselhava a prudência, a minha
juventude impele-me a que me ponha a caminho do emprego.
Nada de mais normal, não fora ter de me ir
meter em plena “boca do lobo”, a Praça do
Município. Com alguma precaução lá
consegui esgueirar-me e entrar para a segurança do edifício. Não por muito
tempo. O apelo da rua era grande…
Foi então que, excitada, “agarrei” uma folha
de papel que deixei, escrita, em cima da secretária, e onde se podia ler:
Vou para a rua festejar a revolução
Viva Portugal
