sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

RELIGIÃO EM NOME DE DEUS?



Nenhum deus
Por mais insignificante ou poderoso que seja
Justifica a violência.
Para isso bastam-nos os homens
E desgraçadamente
Muitos dos homens que seguem esses deuses…

FCC

sexta-feira, 21 de Março de 2014

ÁRVORE



Sou o útero da água e a alma do fogo
O berço que acolhe e te protege a infância
A cama onde dormes e fazes amor
E o verde que encurta uma longa distância

Eu sou o regaço da sombra que anseias
O ar que respiras e a chuva que vês
A brisa nos olhos quando te passeias
E sou o papel do livro que lês

Eu sou a madeira que te enche a casa
A haste onde as aves suspendem os ninhos
E a grata frescura quando o sol abrasa
O pó dos caminhos

Eu sou o pulmão do corpo do mundo
O jardim d’esperança que enfeita a cidade
E em mim é que dormes o sono profundo
Quando outros te levam para a eternidade

Árvore apenas em ti me entrelaço
De ti dependente como tu de mim
Unidos os dois num último abraço
À espera do fim

Sou árvore apenas
E por mais pequenina e simples que seja
Num mundo que anda de mim esquecida
Eu sou o alento que a terra deseja
Eu sou o princípio e o fim da vida


(Fernando Campos de Castro)

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Bem-me-quer…





“A vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala,
vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias,
ter parado no bem-me-quer …”

(José Saramago)

segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

FOZ DO MEU AMOR



À beira mar, assim de proa erguida
Branca gaivota de luz, tu és farol
És a traineira que parte rumo à vida
Ó minha Foz de luz, de sal e sol
Nas tuas ruas corre a maresia
E as tuas casas são como um altar
Onde se ouve à noite a sinfonia
Que o Douro toca quando beija o mar

À beira mar, assim tu és vitral
De céu azul e algas e de bruma
És velha Foz a minha catedral
Entre castelos de ondas e d’espuma
Tu és ainda a tela por pintar
Onde se espelha o céu e a distância
Aquele verso ainda por rimar
A mãe do mar e mãe da minha infância

Ó minha terra feita de ternura
De barcos, redes, mar aberto em flor
Ó Foz do Douro, minha Foz futura
Razão de ser deste meu amor

domingo, 26 de Janeiro de 2014

Se eu gosto de poesia?


Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente,
bichos, plantas, lugares, chocolate,
vinho, papos amenos, amizade, amor.
Acho que a poesia está contida nisso tudo.



domingo, 5 de Janeiro de 2014

Eusébio, o imortal


Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

"Quando um homem quiser"


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
...És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


(José Carlos Ary dos Santos)

domingo, 20 de Outubro de 2013

Mia Couto


O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda
Basta o tempo.


Bom domingo e boa semana

quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

LÁGRIMAS DE MISÉRIA


DIA MUNDIAL DA ERRADICAÇÃO DA POBREZA

Com as mãos a tremer, na solidão desta minha triste vida, grito num tom silencioso, tão forte que os meus pés parecem pisar um gelo glaciar. Hoje, disse-me um senhor que aqui passou, é o dia internacional de Irradicação da Pobreza. Ele foi embora e as lágrimas cairam-me, pois apesar de jamais me ter queixado nesta minha miserável vida, tenho consciência da pobreza em que sobrevivo, ou melhor, da insignificância do ar que respiro. Sinto que meto nojo a esta sociedade de engravatados, que, certamente, meto nojo àqueles senhores que falam lá naquelas bancadas que nos governam, meto nojo aos comentadores das televisões, meto nojo até à mãe da solidariedade. Sinto-me um nojo humano, neste país miserável que despreza quem trabalhou desde que nasceu, quem nunca reclamou, quem sempre labutou em prol deste país que um dia prometeu um futuro melhor. Nojo, é o que sinto por estas lágrimas que me molham o rosto, pois este meu corpo, que tanto foi escravizado, merecia bem mais do que morrer neste estado. Nojo, de mim, de ti, de nós.

(Aldeias de Portugal)
(Facebook)

terça-feira, 1 de Outubro de 2013

Vindimas

Estamos em época de vindimas. Prevê-se que venha a ser um ano razoável.  É, pelo menos, o que dizem por aqui os entendidos na matéria. Isto porque, eu e o meu parceiro, não passamos  de "JOVENS"  e recentes agricultores!... Agora só precisamos da colaboração do São Pedro. A chuvinha era necessária mas já se está a tornar um entrave... Nem tanto ao mar, nem tanto à terra...

 A vinha (Caniçada)

Fazendo fé na máxima do Estado Novo de que beber um copo de vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, enquanto houver vinho (bom ou mau) muitos portugueses não vão passar fome. 


As uvas estão assim: lindas e boas

Lord Byron escreveu que o vinho consola os tristes, rejuvenesce os velhos, inspira os jovens, alivia os deprimidos do peso das suas preocupações.”

Se assim é, que ele corra com fartura pela mesa dos portugueses que bem precisam de algo que os anime!...


Como sonhadora que sou, não podia deixar de transcrever aqui, a propósito das vindimas, este bonito poema de Miguel Torga:


Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…


Já agora, quem quiser aparecer, será bem recebido.



sábado, 28 de Setembro de 2013

Voltei por uma boa causa


É época de eleições. Muitos estão desiludidos e não querem sequer ouvir falar em política…  Mas será que vale a pena ficar indiferente?

Abaixo  texto inspirador do dramaturgo e escritor alemão Bertolt Brecht (1898-1956)  para reflexão:

“O Analfabeto político

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”


Vou tentar estar mais presente. 

Um abraço a todos os meus seguidores a quem peço desculpa pela minha ausência nos V/ blogues.

domingo, 11 de Agosto de 2013

NA MORTE DE URBANO TAVARES RODRIGUES



No dia 9 de Agosto de 2013
houve uma vaga de calor. De certo modo
ele morreu dentro de um seu romance-
Não foi notícia de abertura. Os telejornais
mostraram mulheres gordas em Carcavelos
e um sujeito pequenino ( parece que ministro )
a falar de “cultura política nova.”
Mais tarde este dia será lembrado
como a data em que morreu
Urbano Tavares Rodrigues.

Manuel Alegre

Liaboa/9/8/2013

quarta-feira, 1 de Maio de 2013

A Prisão Dourada - Fiodor Dostoievski



"Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas... e entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. Talvez, de facto, nunca mais saísses de lá. Está lá tudo! "Estou muito bem aqui sozinho!". Mas, de repente - uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros, e é-te dito: 'Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!". Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu paraíso e pular por cima do muro. Mais! Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo... Sim, apenas uma coisa te falta... um pouco de liberdade.

 Fiodor Dostoievski, in "O Movimento de Liberação"

segunda-feira, 15 de Abril de 2013

Senhores, estou farta!


Carta Aberta


Ninguém me encomendou o sermão, mas precisava de desabafar publicamente. Não posso mais com tanta lição de economia, tanta megalomania, tão curta visão do que fomos, podemos e devemos ser ainda, e tanta subserviência às mãos de uma Europa sem valores (...).

(Miguel Torga)

quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Sonho consciencioso





Sonhei que o mundo tinha mudado!
Não havia flores mortas, folhas secas
jardins abandonados…
Mendigos dormindo em cartões
em becos inundados de dor...

 As crianças brincavam nos passeios
o sol aquecia-lhes o futuro
sorriam inerentes ao que as rodeavam
os velhos caminhavam felizes
sem rugas marcadas
pelas histórias de dor já contadas…

 Que mundo era este?

Era novo…não conhecia!
O vento bafejava calmamente
os campos cobertos de trigo dourado...

 E as ceifeiras de saia rodada
velha e estampada
cantavam...
ceifando o joio dourado!
Pássaros voavam batendo as asas
em rodopio ofuscante…

 Que mundo era este?
Tão belo…sereno…
Acordei!
Tinha sonhado…
Acordei de um sonho consciencioso!

 Levantei meu corpo dormente
espreitei da janela...
a lua dormia ainda sobre as montanhas
e o luar brilhava sobre elas...
Ainda era noite...
voltei a deitar-me querendo retomar
meu sonho !

Alda Melro
Clube dos Poetas Vivos


quarta-feira, 20 de Março de 2013

Glória




Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.

(Miguel Torga)

segunda-feira, 4 de Março de 2013

ROMEU





Uma pequena mas lindíssima aldeia transmontana, do Concelho de Mirandela, que conta com pouco mais de cinquenta habitantes.

Nesta Aldeia, que é abençoada por alguns dos melhores azeites do mundo, encontra-se um afamado restaurante típico, o Maria Rita, que torna qualquer refeição num momento inesquecível.

Logo ao lado do restaurante encontra-se o Museu das Curiosidades, com uma vasta colecção de... TUDO! O Museu das Curiosidades é um espaço simples, onde o visitante encontra numerosos testemunhos da evolução da forma de vida rural, que vão desde automóveis e alfaias agrícolas, até bicicletas e material portátil ligado ao cinema.

Esta maravilhosa aldeia tem as suas casas muito bem conservadas porque beneficiaram de importantes obras na época do Estado Novo.

O nome da aldeia deve-se a que na época medieval existia uma dependência da Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, mais tarde conhecida como Ordem de Malta. O aspecto actual da aldeia ficou a dever-se à acção de Clemente Meneres, empresário agrícola e industrial que ali se instalou em finais do século XIX e se dedicou à produção de azeite com um sistema revolucionário para aquela época. Os resultados estão "à vista", com o azeite de Romeu a atingir patamares de qualidade elogiados um pouco por todo o mundo.

Fonte: Aldeias de Portugal

Já fui muito feliz por estas "bandas"! Almocei diversas vezes no restaurante Maria Rita e tive, até, o privilégio de, um certo dia, conversar e almoçar com o proprietário Clemente Menéres.

Se os meus amigos ainda não conhecem, é uma boa opção para um passeio na primavera, que se aproxima.

A TODOS UMA BOA SEMANA

quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

"Quem não gosta de estar sozinho



é uma péssima companhia".

(Gonçalo M. Tavares)


(Não sei se sou péssima companhia! Gosto de estar só, mas por pouco tempo...)
E os meus amigos, também gostam de "curtir" a solidão?



sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

Confiança



O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

(Miguel Torga)


Desejo a todos um bom fim de semana

quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

DESENCANTO



 Desencanto

Não de caravelas mas de muitas “capelas”
Nunca mais de poder, mas de mil poderes
Este é o país que nos sobra e soçobra
Ao amanhecer

Este é o país onde não sei viver

Tudo se resolve em não resolver nada
Ou tudo se muda para ficar como dantes
Com os moralistas e os chantagistas
E outros fantoches desconcertantes

Este é o país dos meus sonhos distantes

O meu país cresce dos homens mais fúteis
Da subserviência e da influência
Das palavras hipócritas e outros conluios
Este é o país dos processos inúteis
Das luvas e lóbis e dos compadrios

Este é o país dos meus desvarios

Este é um país pela graça divina
Onde todos somos heróis e mais santos
Seja por herança, por fado ou má sina
Este meu país é uma grande latrina
A transbordar merda por todos os cantos

Este é o país dos meus desencantos


 (Fernando Campos de Castro)